Quem não morre não vê Deus.

Aprendendo a brincar de ser feliz.

Friday, August 27, 2004

Proibido pra mim, no way

Foi num tempo em que eu buscava incessantemente príncipes e colecionava sapos.

Tinha certeza que amor e sexo são duas coisas independentes, linhas que correm paralelas e só se encontram no infinito mas, ainda assim, ficava tentando juntar “detalhes tão pequenos de nós dois”. Escrevia poesias em guardanapos de barzinho; como uma náufraga fazendo apelo, balançava os bracinhos na busca de alguma coisa que hoje tenho certeza que não existe. Tentava a todo custo criar uma trilha sonora para a minha vida e transformava tudo em novela mexicana.

Não me lembro do exato momento em que ele apareceu, só lembro que era verão e as tardes eram quentes. Era virtual e atendia pelo nome de Oráculo. Inteligente sem ser chato, gentil sem ser piegas, doce quando necessário. Gostava de chocolate, ficção histórica, gatos e sonhava em ter uma pousada no sul da Bahia. Falava em Deus com a intimidade de quem conviveu com ele mas questionava coisas, como um anjo rebelde.

Foram meses de palavras trocadas e nenhuma jura secreta de amor. Eu usara o golpe baixo da foto que não era minha mas não resisti e contei a verdade quando ele me falou das coisas do céu.

O contato era virtual mas as emoções eram reais. Eu, enlouquecida do lado de cá do telefone e ele com aquele ar blasé do outro lado da linha. Trocávamos sensações e testávamos emoções à distância, que me arrepiavam os pelos e me excitavam.

Ele não me parecia exatamente o amante latino, o Antonio Banderas do LPP. Na verdade, às vezes tinha atitudes assexuadas ou hermafroditas, como as plantas que ele olhava pacientemente através do microscópio. Ah, como eu invejava aquelas plantas que passavam a tarde toda ao lado dele...

E eu criei um mito. E desejei esse mito cada minuto da minha vida naqueles dias quentes, até que finalmente chegou o momento de dar cor, cheiro e paladar ao que até então era delírio.

Eram quase dez horas quando eu cruzei pela primeira vez com aquele olhar. Meu Deus, o olhar... não era humano, era etéreo. O sorriso era contido porém gentil e a camisa não era de abotoar, o que na minha cabeça soou como um aviso: no nosso roteiro, a camisa sempre tinha botões na frente e era só desse jeito que eu sabia começar.

Ele era lindo, na medida em que são lindas as criaturas que parecem ser de mármore. Conversamos amenidades, bobagens meigas mas eu já dava como irremediavelmente perdida a tão desejada noite de “amor”. Não havia um clima de romance mas hoje percebo que a cumplicidade era grande e havia o mais sublime dos sentimentos: a afinidade.

Era madrugada quando finalmente o que era plano virou obra, o que era sonho virou fato. E eu tive a mais perfeita noite de amor dentre as inúmeras que tive ao longo das minhas quatro décadas. O roteiro perfeito que virou filme e depois um “best seller” de todas as histórias deliciosas que a vida em permitiu viver e relembrar.

E eu descobri, perplexa, que existiam seres que me levavam ao gozo sem me prometer mentiras; me tocavam o corpo sem se importar com as formas; que me faziam fêmea sem me subjugar.

Volto a fita para conjugar os verbos no singular. Aquele foi um momento único, ímpar e derradeiro. Sem falsas juras e sem promessas vãs. Um corpo que num momento se fundiu ao meu e que ficou tatuado, de forma definitiva, no meu tesão.

Estaria mentindo se dissesse que lembrei dele a cada dia, depois daquele 5 de fevereiro. Nos anos que se passaram, foram poucas as vezes em que falei seu nome e relembrei essa história. Na verdade, ela só foi e é citada nos momentos de sublime inspiração e indescritível prazer. É a minha melhor história.

Eu levei a vida inteira ouvindo dizerem que os anjos não tem sexo. Vejam só, mentiram pra mim! Os anjos tem sexo sim e fazem amor com perfeição.

Thursday, July 29, 2004

ERRO ESSENCIAL DE PESSOA.

ERRO ESSENCIAL DE PESSOAL

 
     Você sabe como se sente uma pessoa que, ao abrir uma linda caixa de presente, descobre que dentro dela existe um rato morto ou coisa parecida?      Pois é, é assim que me sinto quando lembro de você.
     Essa sua trilogia patológica - arrogância, egoísmo e prepotência - faz de você o bonitinho mais ordinário que conheço. Como toda criatura medíocre, você inverte o sentido das palavras e transforma vítimas em algozes.

     Seria engraçado conviver com alguém assim se o personagem fosse fictício, mas você é real. O seu jeito nefasto de ser ficaria ótimo em um vilão coadjuvante de novela mexicana que morresse no último capítulo, entalado com uma espinha de peixe ou infectado pela salmonela de uma maionese comida em um casamento suburbano.

     Acho que o seu problema é de numerologia. A combinação dos seus dois primeiros nomes se assemelha a um prato de macarrão com batata doce. Além disso, quem tem nome do Rei da Espanha é o seu irmão. O seu é de mordomo ou motorista de madame decandente.  

     Por tudo isso, eu gostaria de usar o Código e, baseada no "ERRO ESSENCIAL DE PESSOA", anular todo e qualquer carinho que já senti por você; quaisquer palavras gentis que eu já tenha dito; as madrugadas mornas de longos papos e muito riso e, principalmente, cada minuto precioso da minha vida que eu desperdicei na sua companhia.

     Passe muito mal!!!!!!!!!!!

Tuesday, July 13, 2004

Vade retro!

Não fosse por menos de meia dúzia de canções, eu ignoraria por completo a vida e a obra do Cazuza.

Sem nenhum preconceito relacionado à opção sexual ou ao estilo musical, fosse ele meu vizinho e eu proibiria até minha cachorrinha Cássia Eller (provavelmente também irão fazer um filme biográfico sobre ela) de cumprimentá-lo. A combinação "SEXO, DROGAS E ROCK'N ROLL" não me seduz e eu nunca achei nada de "fenomenal" na obra musical do próprio. Além disso, pelos comentários que ouvi de quem assistiu o filme, o tal Agenor foi mau filho, mau namorado(a), mau colega, enfim... Afinal, não consigo ver nada de espetacular em alguém que manda a própria mãe tomar no c*.

Fiquei pensando no quanto o Frejat engoliu sapos (por amizade ou interesse profissional, não sei) do Cazuza, criatura promíscua e exibida. Isso me faz pensar no Erasmo Carlos que, mesmo sendo o mais talentoso, atura aquele chato do Roberto Carlos há quarenta anos; no Leoni que, sendo sensacional, se calou por muitos anos e deixou aquela insossa da Paula Toller usar suas canções e inúmeras outras criaturas que por algum tipo de sentimento que não consigo definir, se sujeitam em ser coadjuvantes de seres bem menos talentosos que eles.

Tenho a nítida sensação de que, ao contrário do que parece, Deus faz esse tipo de artista morrer jovem por piedade e não por castigo. Com isso, evita que se torne um ser patético e decadente como foi o Elvis no fim da vida. Seres perfeitos não existem mas o Cazuza conseguiu reunir em si o que havia de pior em comportamento humano. Cássia Eller e Renato Russo sempre foram bem mais parecidos com "gente normal" do que ele.

Tomara que o "digno de pena" Chorão caia na real a tempo e vire alguém com quem se possa conviver pois da obra dele, certamente, não dá para aproveitar nem meia dúzia de canções, o que certamente não lhe renderá um filme biográfico.

Por isso, considero que a única coisa relevante em assistir o filme do Cazuza é proporcionar uma boa bilheteria para um filme nacional e pedir a Deus que as próximas gerações não herdem nenhuma característica moral do homenageado.